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A VOZ DAS MARIAS E A MULHER NEGRA BRASILEIRA NA LITERATURA

 

 

 

 

 

Por Samantha Monteiro

Degrau de Letras

 

Devido ao seu histórico escravista e patriarcal, o Brasil ainda caminha no combate ao preconceito de cor e de gênero. No cotidiano, em pleno século XXI, é comum ver a luta dos oprimidos para ganhar voz e muitas vezes somos os responsáveis por não querer ouvi-las.

 

Maria Firmina dos Reis foi a primeira romancista brasileira de que se tem notícia, o jornal A Moderação de 1860 anunciava o lançamento de Úrsula, da professora maranhense em questão. O enredo de seu livro traz uma crítica à escravidão vigente na época e é considerado o primeiro livro a tratar das ideias abolicionistas. Maria Firmina inovou ao trazer personificação à figura dos escravos, que até então não eram representados como iguais, dotados de sentimentos e todas as complexidades da vida humana.

 

À frente de seu tempo, a escritora foi a primeira mulher a passar em um concurso público no Maranhão e criou uma escolinha mista para meninos e meninas, que escandalizou a sociedade na época. A educadora negra e registrada por um pai ilegítimo teve dificuldade para ser ouvida, ou por ser mulher ou por ter seus ideais tão diferentes da elite da época, ainda bem que alguns anos depois a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea (1888) abolindo a escravidão (me pergunto se a princesa chegou a ler Úrsula em seu período de desconstrução ideológica) e dando início a um movimento que tem repercussões até hoje.

 

A parte engraçada (ou não) disso tudo é que dessa época os nomes que ainda ressoam nos livros de Literatura estudados nas escolas preservam os nomes masculinos, mas onde fica o pioneirismo na luta de classes da Firmina?

 

Carolina Maria de Jesus publicou os seus diários mostrando as condições da mulher negra moradora da favela e suas dificuldades para sustentar seus filhos trabalhando como catadora de lixo. Num cenário onde haviam poucos alfabetizados, Carolina era vista com maus olhos por seus vizinhos pelo simples fato de ela saber ler e escrever. Ao ser publicada, os editores optaram por preservar seus erros ortográficos e não submeter os manuscritos à revisão, o que gerou grandes questionamentos do tipo: ver na autora uma negra que escreveu publicou um livro e não a figura de mais uma escritora que passa pela revisão como todos os outros.

 

Os sofrimentos do cotidiano de Carolina chocam por não ser o que a sociedade que tem condições de comprar um livro na livraria está acostumada a ver. Uso aqui esses termos pela frase óbvia, “é preciso sair da ilha para ver a ilha”. A autora demostrou com seus diários como é a vida de tantas e tantas mães solteiras da periferia.

 

A condição da mulher negra evoluiu desde Maria Firmina até Carolina Maria, a escrava que sonhava com a sua liberdade e a catadora que sonhava com a vida digna dos filhos não são diferentes, pois esses personagens representam muitas mulheres marginalizadas pela sociedade por ser mulher e por ser negra, como essas duas características tão naturais e tão sem sentido para segregação trazem um peso a mais em suas costas.

 

 

É claro que essas duas mulheres não são as únicas brasileiras a abordarem temas sociais, a exemplo temos Conceição Evaristo, que hoje é doutora em Literatura Comparada e uma das vozes mais influentes na Literatura brasileira contemporânea para falar sobre discriminação de gênero, de raça e de classe, mas teve que conciliar seus estudos ao trabalho de empregada doméstica para se sustentar durante esse período. As vozes estão gritando, basta pararmos para ouvi-las, para lê-las a fim de abrir nossos olhos para as questões humanas que nos rodeiam.

 

 

 

O livro Quarto de Despejo foi traduzido para 13 línguas, sendo referência para os estudos sociais e culturais brasileiros. Nenhum livro foi lançado em Portugal assim como nenhum da escritora Conceição Evaristo. 

 

Obras publicadas de Carolina Maria de Jesus são:

  • Quarto de Despejo (1960)
  • Casa de Alvenaria (1961)
  • Pedaços de Fome (1963)
  • Provérbios (1963)
  • Diário de Bitita (1982)
  • Meu Estranho Diário (1996)
  • Antologia Pessoal (1996)
  • Onde Estaes Felicidade (2014)

 

COLABORAÇÃO

 Samantha | Degrau de Letras

Nasci em 91 e desde sempre moro em uma cidadezinha no interior do nordeste brasileiro. Tento conciliar mil coisas ao mesmo tempo e uma delas é a casadinha leitura e escrita, uma paixão que me levou aos blogs. Atualmente mantenho o Degrau de Letras como um hobby e um veículo para me conectar com outras pessoas que também gostam de livros. Tenho interesse em temas sociais e políticos, sou a favor da causa animal, apaixonada por itens de papelaria, meu signo é café, e caminho para uma vida mais saudável.

 

Diante da oportunidade de falar sobre Literatura Brasileira no blog da Cláudia, vi um espaço propício para estudar e apresentar um pouco sobre esse tema que tanto me interessa.

 

leitora beta * divulgação * literatura *

contacta-me para mais informações contactoclaudiaoliveira@gmail.com

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