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amulherqueamalivros

Ter | 09.10.18

A VIAGEM DE SMART

Cláudia Oliveira

Conto (Quase)a Verdade é um cantinho novo e especial neste blog. É uma forma de unir a ficção e a realidade. E deixar os leitores tirarem as suas próprias conclusões. Irei inspirar-me na minha vida, nos meus e nos outros (sem os denunciar). Ninguém saberá o que é ou não verdade (vá, algumas sabem). Mas podemos discutir alguns pontos, podem tentar descobrir. 

 

Conto (Quase) a Verdade

A Viagem de Smart

 

No dia seguinte o meu novo chefe estaria à porta da minha casa para levar-me para o primeiro dia de formação em Rio Maior. A loja estava quase a abrir e eu seria a nova gerente, colega de mim mesma, responsável por tudo. Finalmente um emprego, depois de alguns meses a desesperar em casa. Com boquinhas dos meus pais, sempre a duvidar da minha vontade de procurar trabalho. 

 

Os primeiros dias correram lindamente. As colegas eram super simpáticas, faziam de tudo para me sentir em casa. Não chegava muito tarde, nem precisava de ir muito cedo. Ainda tinha a sorte de ir e vir de carro diariamente com o chefe, sempre poupava os trocos que mal tinha. O pano de fundo perfeito para sentir-me super feliz e realizada. E um bocadinho mais adulta. 

 

Durante o regresso para casa o meu chefe falava imenso. Normalmente gabava-se da sua rica vida, da sua rica mulher e dos seus ricos filhos. Aquele típico homem que resolve tudo com dinheiro e poder. Eu era a pessoa mais simpática do mundo e estava tudo bem. Na maioria das vezes ia super atenta à estrada porque ele era amante de velocidade e eu detestava. 

 

Depois vieram os elogios. A minha roupa era gira, o meu cabelo era giro, os meus sapatos eram giros. Eu agradecia, por simpatia. Nunca achei muita piada. "Lá está a esquisita". Talvez. Depois vieram os abraços. "Dois beijinhos, anda cá". E eu passei a ficar nervosa com as viagens. Íamos num Smart. Acho que nunca mais entrei num Smart. O carro começou a ficar pequeno, e eu comecei a ver a minha vida andar para trás a alta velocidade.

 

Já passaram muitos anos. Devia calar-me para sempre. 

 

Um dia, no regresso, comentei que me doía o pescoço. Ele agarrou nesse comentário para fazer o que queria fazer. Devagarinho, como quem não quer a coisa. "Também me sinto tenso, toque neste músculo para sentir". Agarrou na minha mão e esfregou-a no pescoço dele. Eu atenta à estrada, não fosse ele ir contra uma árvore. Meio sei saber o que fazer, miúda de vinte anos, "ainda vou ser despedida". A viagem tinha cerca de 40 minutos pela frente. 

 

Devia calar-me para sempre. 

 

Mais à frente, avisou-me que ia parar o carro para me fazer uma massagem. "Não precisa, senhor Paulo", "não precisa, senhor Paulo". Eu disse "não precisa". Podia ter dito outras frases menos simpáticas. "Meta-se no seu lugar", "deixe-me em paz", "vá à merdinha". Mas fiquei sem coragem nenhuma. Não sabia o que estava a sentir. Talvez uma massagem não fosse nada de mal. Parou o carro. "Vou ser despedida". 

 

Pediu-me para tirar as alças do top porque lhe dava mais jeito. Eu aceitei. E começou a massajar-me como se já fizesse isso há anos. Como se não existisse uma linha que separa o chefe, da empregada. O homem, da mulher. "Já está bom, senhor Paulo". Senhor, o senhor não parou e tentou beijar-me pescoço. Coloquei as alças, aflita e repeti, "está bom, senhor Paulo". Quando tentou agarrar-me a mão, "está bom, senhor Paulo, obrigada". Uma mulher agradece sempre a sua sorte. 

 

Caladinha.