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Seg | 22.06.15

As segundas feiras podem ser boas

Cláudia Oliveira

Um colega está a trabalhar a última semana nesta empresa. Vai reformar-se. Respeito-o imenso devido à idade e sabedoria. Tem uma imagem imponente, cabelos brancos e um ar carrancudo. Estou nesta empresa há seis anos, mais ou menos, se  conversámos duas vezes foi muito. Isto porque a empresa tem dois setores separados por alguma distância e encontramos-nos apenas alguns segundos todos os dias. Segundos que servem para ele entregar-me alguns serviços que fazem parte do meu trabalho. Ao longo dos anos sempre achei que ele não gostava de mim. E por ser a única pessoa distante de mim, sinto pena pelo julgamento sem conhecimento de causa. Apesar de entender perfeitamente que nesta vida haverá sempre alguém que não irá com a minha cara. E aceito sem problemas. Já lá vou, deixem-me situar-vos do pano de fundo.

O meu marido também trabalha nesta empresa. A função dele está ligado diretamente ao setor do meu colega reformado. O ano passado tivemos um filho, durante cinco meses estive de licença de maternidade. Um dia, durante esse período, o marido foi almoçar a casa e levou-me seis livros. Livros novos. "O senhor Carlos (nome fictício) ofereceu-te estes livros". Ofereceu? Como assim? "Ele sabe que adoras ler e quis oferecer-te alguns livros que gostou de ler". Através do meu marido tomou conhecimento da minha paixão pela leitura. Eu agradeci muito! Fiquei a admirá-lo mais. Os leitores deste mundo têm uma linha imaginária que os une. Sobretudo se os autores preferidos forem os mesmos. Nesse caso, a linha tem a cor verde, não é tão transparente. Isto sou eu a inventar. 

Quando regressei ao emprego nunca consegui falar sobre o assunto com o meu colega. Agradeci por alto, mas nunca toquei no assunto de forma a iniciar uma conversa. Sempre que o encontrava a almoçar no café tinha um livro aberto na mesa. "Bom almoço" e sentava-me com o meu livro. Não consigo explicar esta timidez aguda que só surge com algumas pessoas.

Um dos livros que o meu colega me ofereceu foi O Museu da Inocência, de Orhan Pamuk. Um livro que entrou para os meus livros preferidos da vida. Nunca lhe disse. Apesar de termos em comum o gosto pela leitura nunca fui capaz de trocar impressões com ele. Acho que o facto de pensar que ele não gosta de mim nunca ajudou a quebrar o gelo. O marido chegou a insistir várias vezes. É pouco dado a confianças, sério!

Na sexta feira vamos ter o jantar de despedida. Tenho conversado com o meu marido sobre o facto de querer oferecer alguma coisa ao meu colega como símbolo de gratidão. Tenho matado a cabeça de tanto pensar no assunto. 

Hoje quando entrou no escritório vinha animado. Trazia consigo a colega nova. Demorou breves minutos. Enquanto apresentou a equipa voltei a lembrar-me de como me ignora educadamente. Indicou outra colega para a entrega dos serviços que devem ser entregues à minha pessoa. Deixei de ligar a isso há muito tempo, mas é sempre chato. A colega também nem abriu a boca para dizer nada, quem sou eu. Os serviços chegam sempre ao destino, é o que interessa. 

Ele abandonou a sala com o "até logo" do costume. Em menos de um minuto regressou à sala com quatro livros na mão. "Cláudia, estes são para os próximos quinze dias". Com um sorriso gigante. Eu agradeci, agradeci imenso, com o coração aos pulos, vermelha que nem um tomate. Os meus colegas assistiram à cena, mas ninguém disse nada. A vida é engraçada. Estou para aqui a pensar em como um gesto vale mais do que dezenas deles. Sinto-me patética.

Não foram precisas mais de duas frases. Nunca o irei esquecer. 

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