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PORTUGAL | Crónicas de Shaolin, de Patrícia Morais

Li várias escritoras portuguesas, mas este é o livro que merece estar na lista do meu querido projeto Do Quarto para o Mundo. Aquele projeto que iniciei no começo deste ano e tenho realizado aos poucos. No próximo ano decidi focar a minha atenção em ler o máximo de escritoras de países diferentes. Este ano li 16 (podes ver a lista AQUI). O projeto consiste na leitura de escritoras dos 196 países existentes.

Recentemente fiz uma compra com vários títulos para este projeto. Partilharei em vídeo no meu canal no Youtube (para subscreveres o canal clica AQUI). Mais vídeos surgirão sobre este projeto. Não percas! Estou mesmo empolgada por descobrir novas escritoras na minha estante de livros.

Crónicas de Shaolin, da portuguesa Patrícia Morais foi enviado pela própria para integrar o quadro de novos autores portugueses, mas gostei tanto dele que decidi integrar o livro neste desafio. Tenho duas palavras: SUPER RECOMENDO (comprar livro).

O livro conta a experiência da autora, quando esta decide deixar o seu país para ir aprender Kung Fu para uma escola na China durante um ano. Só esta ideia me deixa completamente entusiasmada e a vibrar. É um ato de coragem. O livro agarrou-me do início ao fim. Foi uma leitura que me surpreendeu imenso pela positiva pela qualidade e informações contidas. Nunca tive um momento de tédio com este livro. E ainda fiquei com vontade de sair a viajar de malinha às costas.

Patrícia Morais também aborda os pontos menos positivos desta viagem. A solidão, a ausência dos entes queridos e a dificuldade em ajudar os familiares quando estes mais precisavam. Conta como se apaixonou e os conflitos desta relação, juntando ao facto de estar mais sensível e vulnerável.  Acho que este livro dá voz às perturbações que uma mulher passa quando descura o amor próprio e se esquece do seu valor. Esses momentos fizeram-me recordar uma relação que tive no passado. Algumas atitudes pareciam as minhas e talvez tenha sido isso que me fizeram ligar mais à história. É tão bom quando me encontro na literatura.

Obviamente que o livro também fala em Kung Fu e nos professores exigentes. Nas dificuldades de comunicação devido à língua. Nas condições gerais e na forma como as amizades se desenvolvem dentro do mesmo ambiente feito de pessoas muito diferentes.

Gostei muito da escrita e do desenvolvimento da história. É uma escritora que pretendo acompanhar, porque tem todas as qualidades para evoluir na literatura portuguesa. Fico a torcer.

Se gostas de histórias reais, adoram viajar e querem um livro bem escrito e interessante Crónicas de Shaolin tem de ir diretamente para a tua lista de desejos.

 

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ARGENTINA | Kentukis, de SAMANTA SCHWEBLIN

 

Li Kentukis para o meu projeto Do Quarto para o Mundo. Um projeto que consiste na leitura de 196 autoras de 196 países diferentes. É um projeto que me tem dado muitas alegrias. Neste momento já li 15 países diferentes! Ou seja, faltam 181 países. As escolhas têm sido quase todas satisfatórias. Conheci autoras incríveis. E hoje trago mais uma. Samanta Schweblin. Aquela escritora que quero ler tudo. E já comecei a comprar os seus outros livros.

 

Kentukis, é o seu mais recente livro publicado pela Elsinore. Uma editora que prezo imenso, do qual sou colecionadora. Nunca pensei dizer isto, mas é verdade. Tenho uma bela coleção e estou sempre em cima das novidades. É uma editora que traz sempre autores diferentes, de vários pontos do mundo. Aposta na diversividade e na qualidade.

 

O vídeo mostra tudo o que senti em relação a este livro. E leva a ponta do véu em relação a esta história incrível e aterradora. Um tema muito actual! Acredito que lançou aqui uma profecia, mais dia menos dia irá acabar por ser assim. Mas vejam, é mais fácil explicar no vídeo.

 

Espero que tenha sido suficiente para colocarem este livro na vossa lista de desejos. Boas leituras!

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ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA | Oreo, de Fran Ross

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Editora Antígona

Lançamento Julho, 2016

 

Depois de passar pelo Paquistão, fui até aos Estados Unidos da América. Dei de caras com o romance da escritora afro americana Fran Ross através de um passeio pela internet. Tudo me chamou a atenção, o titulo, a sinopse, a capa e o facto de ser um título inusitado nas minhas escolhas. Não faltavam escolhas para dar como concluído este país. Este talvez seja o país com maior oferta. A minha estante está cheia de títulos modernos e clássicos de escritoras americanas. Oreo (1974), o único romance de Fran Ross foi a escolha da vez para o projeto Do Quarto para o Mundo.

 

Fran Ross(1935-1985) foi repórter da Saturday Evening Post, trabalhou em várias editoras nova-iorquinas nos anos 60, e colaborou com as revistas Essence e Titters – esta última caracterizada pelo seu humor feminista. Neste romance, a autora faz uma paralelismo entre a protagonista e  uma peça acerca de Teseu, na mitologia grega um herói ateniense. Oreo, como lhe chama a sua avó é a Christine, a heroína do romance. Vive em Filadélfia, é filha de mãe negra e pai judeu. “Oreo é uma versão moderna do mito de Teseu, um hilariante viagem de autodescoberta e, sobretudo, uma inteligente visão de estereótipos raciais e da construção da identidade americana”: O enredo não é explicito, sabemos que Oreo parte em busca do pai judeu por terras nova-iorquinas. São relatadas as gerações dos avós e pais da Oreo até à sua adolescência. Famílias muito diferentes que se misturam entre a cultura pop dos anos 70 num retrato muito minucioso do que se passava nas mentes e casas daquelas gerações. 

 

Por ignorância não consegui entender todas as referências. A escrita muito característica da autora, a lembrar um romance pós moderno, entre diálogos imprevisíveis. dentro de uma estrutura pouco vulgar e nada linear. Títulos para os capítulos a desvendar as próximas peripécias, com uma ironia refinada, este livro foi uma experiência inigualável. 

 

“Neste livro não existe estado do tempo propriamente dito. Numa ou noutra ocasião, fazem-se vagas alusões às condições meteorológicas. O leitor deverá, ao longo da narrativa, imaginar o estado do tempo que mais lhe agradar. O Verão é  que faz mais sentido num livro desta extensão. Assim, não é preciso gastar páginas e páginas a descrever pessoas a despedir e a vestir o sobretudo.”

 

O que se destaca é a ironia e a inteligência narrativa da Fran Ross. Não senti muita ligação com Oreo, apesar das respostas sempre na ponta da língua, da ingenuidade e rebeldia. Gostei imenso dos avós, do desfilar de momentos narrativos impressionantes. A originalidade e a forma como desenvolve o enredo é cativante. Não queria largar o livro, apesar de não me sentir completamente conectada.

 

Os Estados Unidos e a geração dos anos 60 está totalmente neste romance. É isso que eu quero sentir, sempre que escolher um país diferente, viajar no tempo e no espaço. Foi uma boa escolha, por trazer a realidade de um país gigante que define as pessoas pela sua cor de pele ou as suas escolhas religiosas. Onde é evidente as diferenças nas classes sociais e a forma como o país encara essas diferenças. 

 

“Imagina que o teu dentista é branco e imagina que ele nutre lá no íntimo, sem disso se aperceber, um ódio inconsciente aos negros, e imagina que ele está de mau humor quando lhe entras no consultório. Não poderá dar-se o caso de ele carregar na broca com um bocadinho de força a mais, de ele ir ligeiramente mais fundo do que seria indispensável?

 

Livro recomendado, para leitores que gostem de um livro desafiante.  Faltam 194 países 194 escritoras para concluir este projeto. Quais são as tuas escritoras americanas preferidas? Já conhecias este livro?

 

Fran Ross não tem mais romances, morreu antes de completar o segundo.

 

Três palavras para este livro:

– Racismo

– Ironia

– Cultura pop 

 

O próximo país será o país do meu marido, Angola. Consequentemente um dos que mais me atraem pela sua beleza e cultura. Pela temática e experiência de vida da escritora, espero que seja um bom romance para juntar a este leque que até ao momento não tenho razões de queixa. 

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PAQUISTÃO | Conflito Interno, de Kamila Shamsie

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Editora Relógio D´Agua

 

Lançamento Dezembro 2017

 

 

Começo o projeto Do Quarto para o Mundo – 196 Países 196 Escritoras com o pé direito. Paquistão, um dos sextos países mais populosos do Mundo. Kamila Shamsie e o seu Conflito Interno é a primeira escolha. Já andava de olho neste romance antes de vencer o prestigiado prémio Women´s Prize for Fiction (2018). Culpa da capa e do título, sem ter noção da história que escondia. Só li a sinopse quando o livro chegou a casa e fiquei mais interessada. As expetativas criadas acabaram por ser superadas ao longo da leitura. É um livro bastante interessante, um maravilhoso retrato dos tempos atuais.  Portanto, todos os ingredientes necessários para começar em grande.

 

 

Conflito Interno recria a tragédia grega Antígona, numa versão moderna pela voz de uma família muçulmana britânica. Uma família composta por três irmãos, dois deles um casal de gémeos. A Isma, irmã mais velha, decide ir estudar para os Estados Unidos e deixar de tomar conta dos gémeos. Os gémeos Parvaiz e Aneeka parecem meio perdidos com a decisão da irmã. Os pais morreram muito cedo, foram viver para Londres e sempre foram só os três desde muito cedo. Parvaiz acaba por ser apanhado pelo radical estado islâmico. A sua irmã gémea sente-se incapaz de proteger  o irmão.

 

 

O título resume perfeitamente as emoções de todas as personagens. Ou de um povo em geral. Eles confrontados com uma realidade que nunca ninguém lhes tinha contado. Os muçulmanos carregam um estigma. Por mais que se lute pela igualdade, o islamismo continua a criar medo e a provocar curiosidade. O racismo e o preconceito é disfarçado até ao primeiro deslize. E basta um muçulmano provocar o pânico, que todos vão ser julgados. “Odeio que um muçulmano faça com que odeie todos os muçulmanos”. Os costumes e tradições diferentes suscitam muito estranhamento.

 

 

“Rindo-se, ele disse: “O cancro ou o islão – qual será o problema mais grave?”

 

Ainda havia momentos em que uma declaração daquelas podia apanhar as pessoas desprevenidas. Ele ergueu logo as mãos, pedindo desculpa. “Caramba. Quer dizer, desculpa. Isto soou mesmo mal. Quer dizer, deve ser difícil ser muçulmano nos dias que correm.”

 

 

 Ser mulher, usar hijab.

 

 

“Alguém te chateia por causa do hijab?

 

Ela inclinou a cabeça para trás, apoiando-a no peito dele e olhando para cima, para o ver. “Qualquer mulher de dezanove anos é chateada por algum motivo, independentemente da roupa que vestir. Em geral, é um comportamento fácil de ignorar. Mas às vezes acontecem coisas que aumentam a hostilidade das pessoas. Ataques terroristas com vítimas europeias. Ministros da Administração Interna que dizem que as pessoas se distinguem pelo modo como se vestem. Esse tipo de coisa.””

 

 

 E quando o terrorismo vem de onde menos se espera, de quem viste crescer, do próprio sangue? Como é viver com essa cruz? Como é enfrentar os olhares, as acusações dos jornais? Como é que se lida com o conflito interno causado por estes motivos? Como é terem dúvidas sobre ti e os teus?

 

 

Assumo que fiquei encantada com este livro. Abanou-me, deixou-me a pensar sobre os mais diversos assuntos. Tirou-me da minha zona de conforto. Comecei por estranhar os diálogos, acabei por mergulhar nesta história e mudar o meu olhar perante as personagens ao longo do romance. Tão próximo da realidade, tão profundo e sensível.

 

 

Livro recomendado e diretamente para o cantinho especial cá de casa. Já leram alguma escritora paquistanesa? Conheciam este livro? Querem ler? Faltam 195 países 195 escritoras para concluir este projeto.

 

 

Kamila Shamsie tem mais dois romances editados em Portugal:

 

– Sombras Queimadas (2010) – esgotado

 

– Um Deus em Cada Pedra (2015)

 

 

Três palavras para este livro:

 

– Preconceito

 

– Terrorismo

 

– Família

 

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O próximo país será os Estados Unidos da América. Escolhi um livro pouco conhecido, com uma proposta muito interessante. A autora só escreveu um romance, morreu bastante cedo. Não faltavam opções, mas quis escolher algo pouco previsível. E por aí, quais são as tuas escritoras americanas preferidas?

 

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DO QUARTO PARA O MUNDO | LISTA

1. Paquistão | Conflito Interno, Kamila Shamsie

2. Estados Unidos da América | Oreo, Fran Ross

3. Angola | Essa Dama Bate Bué, Yara Monteiro

4. Ruanda | A Menina que Sorria Contas, Clemantine Wamariya

5. Inglaterra | O Fim de Onde Partimos, Megan Hunter

6. Austrália | As Flores Perdidas de Alice Hart, Holly Ringland

7. Croácia | Raposa, Dubravka Ugresic 

8. Escócia | Como Ser Uma e Outra, Ali Smith

9. Espanha | Frida Kahlo, uma biografia, María Hesse

10. Itália | Crónicas do Mal de Amor, Elena Ferrante

11. Canadá | O Eco das Cidades Vazias, Madeleine Thien

12. Nigéria | Fica Comigo, Ayòbámi Adébáyò

13. Polónia | Viagens, Olga Tokarczuk

14. Argentina | Kentukis, Samanta Schweblin; Distância de Segurança, Samanta Schweblin

15. Portugal | Apneia, Tania Ganho

16. Coreia do Sul | O Livro Branco, Han Kang

17. Japão | Uma Questão de Conveniência, de Sayara Murata

18. Suécia | Uma Gaiola de Ouro, Camila Lackberg

19. Irlanda | Na Floresta, Edna O´Brien

20. Brasil | Todos os Contos, Clarice Lispector

21. França | O Insecto, Claire Castillon ; Consentimento, Vanessa Springora

22. Turquia | 10 Minutos e 38 segundos Neste Mundo Estranho

23. Austria | Tempo do Coração, Ingeborg Bachmann e Paul Celan