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amulherqueamalivros

Qua | 04.11.15

Do livro As Horas, de Michael Cunningham

Cláudia Oliveira

"Parece de súbito fácil fazer um bolo, criar
um filho. Ama-o puramente, como as mães amam - não tem qualquer ressentimento por ele
não querer partir. Ama o marido e sente-se satisfeita por ser casada. Parece possível (não
parece impossível) que tenha transposto uma linha invisível, a linha que sempre a separou
do que preferiria sentir, de quem preferiria ser. Não lhe parece impossível que tenha sofrido
uma subtil mas profunda transformação, aqui, nesta cozinha, neste mais natural dos
momentos: acertou as contas consigo mesma. Esforçou-se durante tanto tempo, tão
arduamente e com tanta boa-fé, e agora descobriu o truque de viver feliz, sendo ela mesma,
do mesmo modo que uma criança aprende em determinado momento a equilibrar-se numa
bicicleta de duas rodas. Parece que vai ficar bem. Não perderá a esperança. Não lamentará
as suas possibilidades perdidas, os seus talentos inexplorados (e se, no fim de contas, não
tiver nenhum talento?). Dedicará a vida ao seu filho, ao seu marido, ao seu lar e aos seus
deveres, a todas as suas dádivas. Quererá este segundo filho."