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Ter | 03.11.15

Em Teu Ventre | José Luís Peixoto

Cláudia Oliveira

 

 

Em Teu Ventre, a novela editada recentemente de José Luís Peixoto, retrata uma dos episódios mais marcantes do século XX em Portugal, as aparições de Nossa Senhora. Essas aparições não são descritas no livro, fica o aviso. É descrito o ambiente vivido naquela altura, entre o período de Maio a Outubro no ano de 1917. O autor fundamentou a história em factos históricos. Todas as personagens existiram, os nomes são verdadeiros. Fé é uma questão pessoal, é escolha sua acreditar ou não.

A história é contada de forma desfragmentada, sendo dada voz a várias personagens. Mães (inclusive Nossa Senhora), Deus (narrado de uma forma bastante particular), Natureza. Temos também um narrador na terceira pessoa. A voz do narrador muda constantemente.

Um livro sobre mães, relações de mães e filhos, esperança e fé. Li-o num ambiente onde nasceu o meu primeiro filho, o que tornou a leitura especial. Li-o com um toque de delicadeza que é necessário ter enquanto a história é exposta aos nossos olhos. José Luís Peixoto torna especial quem o lê.

A ruralidade expressa nesta história dá voz aos rostos melancólicos do nosso País. Portugal vive em cima de uma mancha de esperança, fé e medo. Caminhamos entre dúvidas e vontade em acreditar.

“ (Todas as pessoas têm direito a descanso, menos as mães. Para cada tarefa, profissão ou encargo há direito a uma folga, menos paras as mães. Se alguma mãe demonstrar a mínima fadiga de ser mãe, haverá logo uma besta, ignorante de limpar baba e de parir, que se oferecerá para a pôr em causa. Não é mãe, não sabe ser mãe, não foi feita para ser mãe, dirá. Mas, se todas as pessoas têm direito a descanso, será que as mães não são pessoas? A culpa é nossa. Sim, a culpa é das mães. Deixámos que fossem os filhos a definir-nos). “

Não é maravilhoso este excerto?

O autor conquista-me gradualmente, sendo este o meu livro preferido. Emocionou-me, fez-me reler várias passagens e permitiu-me uma tristeza melancólica tão própria da gente da minha terra.

Cinco estrelas. 

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