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 Esta é a primeira história

Escrevi este texto ao longo de vários anos. Primeiro na alma, depois no papel. Guardei esta história comigo durante muito tempo, mas comecei a escrevê-la, no papel, este ano. Os planos quase que foram cancelados, mas consegui atingir o meu objectivo. Enviei o texto para uma editora esperançosa, mas não obtive resposta. Talvez por não ter qualidade. Eu tenho perfeita noção que preciso de trabalhar mais, mas também acredito no potencial desta história. Desta forma, decidi finalizar este texto e enviar para o mundo através do Youtube porque continua a ser a minha casa. Eu tenho uma história e quero partilhá-la convosco.

Parece que tudo se encaminhou para chegar a este dia. Não imaginam o meu nervosismo. Mal dormi a pensar neste momento. Estou em pulgas para saber a vossa opinião.

“Um Ponto Final” é um livro constituído por três histórias com o mesmo narrador, em momentos diferentes da sua vida, que se completam e encerram um ciclo. São histórias dentro de uma história.

Capítulo  1

Esta é a primeira história

Quando deixei de falar com a minha avó tinha a certeza que estava a fazer o mais acertado. Ela falava mal da minha mãe durante o almoço, todos os fins de semana. Era um sacrifício mastigar pedaços de carne tão grandes encharcados de molho, com grandes folhas de louro, enquanto escutava palavras como “puta” e “cadela com o cio”.

A minha mãe enviuvara e eu havia sido arrancada de um lugar seguro para um lugar inconformado e difícil. Uma pluma pousada numa folha seca enfrentando o vento. Uma criança de olhos perdidos com dificuldades para entender o mundo. Passara a ser alvo de pena, por parte de quem conhecia a nossa história. A menina que ficara sem pai tão pequena. Três irmãos orfãos de pai. Uma mãe tão jovem. Coitadinhos.

O meu pai não falava com a minha avó quando perdeu a vida. Descobri que envolveu questões de dinheiro emprestado e algumas discussões. Imagino aquelas noites afogadas em tristeza pela partida do filho, sem outra oportunidade para uma conversa. Um pedido de desculpas ou mais uma discussão.

Talvez por culpa das saudades,  depois do funeral, a minha avó espetou duas medalhas, com a foto do meu pai nas orelhas. Uma foto de cada lado, balançando num furo largo e descaído. Para completar o quadro vivo, outra medalha com a mesma foto, pendurada num colar de ouro grosso. A sua casa transformou-se numa exposição de fotografias. No retrato maior, enormes cabelos lisos, um sorriso bonito, a lembrança da juventude. O retrato mais recente, igual às medalhas, um homem casado, pequenas rugas de expressão nos olhos.

A parede desnuda da minha casa passou a ter um quadro gigante com o mesmo rosto. Mais tarde, recebi um colar com a mesma fotografia oferecido pela minha avó, com um pedido, “guarda-o bem, a tua mãe deu cabo das fotografias todas, é para nunca te esqueceres dele”. O medo de esquecer uma cara passou a assombrar a minha família. Comigo aconteceu exatamente o contrário. Tornou-se impossível escapar daquela imagem. Passou a olhar para mim de todos os lugares onde me escondia. Um coração ao compasso do tempo enquanto o seu rosto tentava falar comigo. Acreditava que estaríamos a guardar segredos através do silêncio.  “Fiz uma viagem, mas volto”. O meu pai era o rosto dos homens que via de costas, do autocarro, a caminho da escola.

Comecei a evitar os almoços ao fim de semana. Não disse logo à minha mãe o que se passava, mas ignorava sempre que ela me dizia, “tens de ir, ainda vão dizer que sou eu a culpada”. A única motivação era a nota ou os brinquedos que a minha avó me dava enquanto mastigava a fruta lavada. “Toma, para comprares uma coisa”. As bebedeiras do meu avô eram cada vez mais frequentes, e os gritos da minha avó tornaram-se insuportáveis. As conversas iam sempre dar ao mesmo, o acidente. Como tinha sido, quem era o culpado, o meu rico filho, meu rico menino. O meu Vitó.

Quando a minha mãe deixou de usar roupa preta, a minha avó passou a conversar entredentes com as vizinhas. Parecia zangada, uma raiva vazia e silenciosa. As pessoas que a encontravam, punham as mãos na anca, abanando a cabeça como concordando. De vez em quando, num gesto teatral, ofereciam-lhe um lenço do largo bolso do avental. Nunca lhe vi as lágrimas. Sempre que se zangava com a vida, zangava-se com o meu avô. “Seu bêbado, em frente às miúdas, não tens vergonha?”. Nesses dias levava-me com ela para o escritório, onde fazia limpezas, depois de almoço. Dava-me canetas para eu fazer letras e deixava-me brincar com as máquinas de escrever dos doutores. Não conversava comigo. Nunca soube se gostava de mim.

Aos poucos fui-me afastando, e quando morreu, muitos anos depois, já não lhe falava. Queria visitá-la, mas ao mesmo tempo, não sabia como enfrentar a dor das duas.  Tinha notícias dela, pelos outros. Sabia que estava doente. Culpa da tristeza. A vida roubara-lhe um filho e depois um marido. A sua incapacidade de aceitar a vida da minha mãe após a morte do filho. Não encontrou vida no meio da mágoa. A dificuldade em descobrir algum sossego nos olhos dos outros filhos e netos.

A minha mãe ficou sozinha, aos 27 anos, a mesma idade em tive o meu primeiro filho. Vejo fotografias dela, de permanente, preto da cabeça aos pés, segurando o meu irmão   com seis meses ao colo, não consigo desviar o olhar do medo. Uma jovem mulher, carregando o azar às costas.

O  tempo parece agora uma brincadeira de crianças descalças. Um monte de bicicletas a circular pelo pátio de terra seca. Pernas fininhas a correr entre canaviais observando as oliveiras. Uma ponte perto de um pequeno riacho. Onde me sentava e esperava pela despedida do sol. Arrancava pequenas flores secas e via o mundo dentro de uma redoma. Passei a estar muito tempo sozinha criando formas para sentir amor.

Inevitavelmente, a minha mãe acabou por se apaixonar outra vez. A carência tropeça em remendos. A solidão procura conforto. Três crianças pequenas, com banhos, refeições, escola, um sem fim de cuidados.Durante muitos anos, e por mais que tentasse, não consegui encontrar a minha mãe nesses momentos. Como se tivesse crescido sozinha.

Um homem entra na vida de uma família, na ausência brutal de um pai, recebido com sete pedras na mão por incompreensão e injúrias. Nessa altura, a minha avó encheu-me a cabeça com histórias, invenções e algumas mentiras. Com oito anos, acreditamos em tudo o que nos é dito. Menos na morte. A infância não aceita despedidas sem adeus, “o pai vem buscar-te mais tarde”.

Passei a olhar para a minha mãe como uma desconhecida. Da mesma forma que queria que ela fosse feliz, sentia que desejava algo errado. Com tanto falatório, comecei a colecionar argumentos para a defender. Criei artimanhas para não escutar frases como “aquela rameira não tem vergonha nenhuma, o corpo ainda nem arrefeceu e mete outro na cama”.

O tempo entre a morte do meu pai e o novo homem não era suficiente para os outros. Não estava certo. A minha voz começou a falhar-me durante a defesa do crime, o novo sorriso da minha mãe. Ouvia de tudo e não entendia a confusão em redor disso. Chegava a casa cheia de angustia e confusa. Enquanto as vozes se alteravam, escolhi afastar-me. Passei a acenar de longe. A inventar desculpas. Nunca mais apareci. Até que deixaram de insistir e eu pude finalmente respirar de alívio.

As idas ao cemitério acabaram. Sobretudo no dia do pai. Detestava o dia em que o professor decidia que eu não queria sentir-me à parte da turma e punha-me a preparar um presente para um pai que nunca o iria receber. “Pinta um desenho para o teu pai”. Também detestava o dia em que a minha avó me levava pela mão, até à campa, e pedia-me para colocar o presente tão bonito ao lado da jarra de flores. Perguntava-me muitas vezes, para quê que ele quer um pisa- papéis?

Algum tempo depois da sua morte, muitos anos de afastamento entre nós, recebi um telefonema de um familiar, avisando-me que tinha dinheiro para me dar. Não me sentia merecedora da herança. Portanto, não aceitei.  Nessa altura, durante semanas, um amontoado de momentos, perturbaram-me. Avó e neta, de mãos dadas, enquanto percorríamos o mercado da fruta, era a nossa melhor memória. O avental preto a roçar na minha cara para me limpar a manteiga. O leite com cevada mexido com agilidade, batendo com a colher no final. O seu rosto à minha frente enquanto me servia água fresca. A pressa para tirar a lagarta do meu prato, escondida entre folhas de alface. A doçura de quem fez o que sabia fazer.

Grávida do meu primeiro filho, a vida seguia e eu raramente pensava nela. Até ao dia em que começou a aparecer no meu quarto, em forma de sombra. Uma mulher esguia, vestida de preto, com duas medalhas a balançar nas orelhas. Visitava-me regularmente, parada no fundo da cama sempre que me levantava para ir à casa de banho. Eu passava, sentia uma lufada gelada e ignorava na esperança que desaparecesse. Quando o meu filho nasceu, apareceu na primeira madrugada, quando regressámos do hospital. Estava curvada perante o berço, a ajeitar os lençóis. Foi a última vez que a vi.

*

Agora, com as mãos tremulas e a voz pouco segura, digo à minha mãe que escrevi uma história e preciso que ela me ouça. Enquanto as palavras se formam sou constantemente interrompida pelas minhas lágrimas. No fim, quando leio “foi a última vez que a vi”, levanto o rosto, à procura de um abraço, um elogio, mas apenas me diz “não é fácil, não foi fácil”. Levanta-se, fecha a janela da sala e sai.

Texto ficcionado baseado em factos verídicos

Hoje faz 27 anos que o meu pai faleceu. Ele faz parte da minha história.

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