Afonso Cruz é o meu escritor português contemporâneo preferido. Posto isto, começo sempre os seus livros com elevada expectativa. Emociono-me com facilidade e fico dentro da história vários dias (se não uma vida). Aconteceu novamente.

A vida de dois homens vai cruzar-se após uma situação caricata. O senhor Ulme não se lembra de ter visto uma mulher nua perante uma revista pornográfica. Desta forma, o narrador decide ajudar o senhor Ulme a encontrar as lembranças perdidas. Primeiramente quero contar-vos que adorei o senhor Ulme, é um homem extraordinário. Transmite uma beleza encantadora. Ulme alerta constantemente o narrador, que por sua vez nos alerta, para as coisas que nos passam ao lado. As flores. Em busca de respostas, o narrador depara-se com vários questionamentos sobre a sua própria vida. Para além disso, vai encontrar opiniões distintas em relação ao senhor Ulme. Qual será a verdadeira? As pessoas que encontramos ao longo da vida formam uma ideia sobre nós, nem sempre perto da realidade.

Tive uma experiência maravilhosa ao ler este livro. Li-o na altura certa. Com a disposição certa. Afonso Cruz inspira-me e transforma tudo o que está à minha volta com as suas palavras. Flores. Guarda-chuvas. Gostava realmente de conseguir transmitir o que senti no final deste livro, mas sendo uma experiência pessoal e intransmissível, esta não passa de uma tentativa falhada. Tentei.

Identifico-me com esta história. Com as escolhas destes personagens. Passo pelas flores sem reparar nelas, mas encontro sempre o chapéu em cima da cama. Ora, deixo-o estar onde o encontrei, ora pego nele e guardo-o. Flores. Chapéu. Guarda-chuva. 

Este livro é perfeito.