Lila era três

 

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Antes de começar, preciso de explicar esta ideia. Conto (Quase)a Verdade é um cantinho novo e especial neste blog. É uma forma de unir a ficção e a realidade. E deixar os leitores tirarem as suas próprias conclusões. Irei inspirar-me na minha vida, nos meus e nos outros (sem os denunciar). Ninguém saberá o que é ou não verdade (vá, algumas sabem). Mas podemos discutir alguns pontos, podem tentar descobrir. Espero que gostem, deu-me um tremendo gozo voltar a escrever para além dos livros. Ainda sinto que estou um pouco enferrujada, mas emocionei-me ao reler. Parte de mim está aqui. 

 

 

Conto (Quase) a Verdade

Lila era três

 

Não dava para esperar mais, teria de ir até ao hospital saber o que se passava. Sentia diferenças no seu corpo. Não dava para continuar a adiar. Dois testes de gravidez negativos eram mais do que suficientes para pensar que o problema era outro. E foi isso que a Lila fez, ligou para o hospital e marcou uma consulta de urgência na unidade de ecografias. Não ia passar de um susto, de uma confusão, nervos ou ansiedade.

 

Esperou dois dias e foi. Sem falar com a melhor amiga que andava muito ocupada com as fotos no instagram, os likes, a falsa fama. Foi sozinha, porque no fundo ninguém se importava. “Vais ver que não é nada, isso é a tua cabeça”. Só avisou o companheiro, “que não seja nada grave”. As mãos estavam suadas, as pernas a tremer, a dor forte no estômago era fome ou nervos. O médico disse-lhe que podia entrar, deitar e deixar a barriga à mostra. Acabou de preencher uma papelada e sorriu para ela. Então, quando foi a sua última menstruação? Uns cálculos. Demorou a vir até cá. Mais cálculos. “Demorei? Como assim, demorei?” Enquanto um gel frio se espalhava na sua barriga, o médico olhava para o ecrã muito atento. Ela olhou e pareceu-lhe ver alguma coisa. Estou doente, é isso, não é? Não está doente, está grávida. E pior, grávida de gémeos verdadeiros. Reparem na palavra pior dito por um médico neste contexto. Primeiro segundo, chorar. Não sabia se de alegria ou choque, se tudo ao mesmo tempo. Sete segundos depois, perguntar, é verdade? Isso não acontece só nas novelas? O médico despachou o assunto com a verdade. 

 

Talvez a viagem do hospital até casa tenha sido mais longa. Lila não se lembra. A única memória é o calor, a voz do médico e as mãos a tremer quando chamou o elevador. Sozinha em casa pensou, a quem vou contar primeiro? Posou a ecografia na mesa e observou aquelas duas sementes de 12 semanas. Lila era três. Não estava nada nos seus planos. Era um ano focado em trabalho, começava a dar os primeiros passos na área que mais gostava. Tinha recuperado as poupanças, a vida social. Tinha feito novas amizades. Fora apanhada pela surpresa, incapaz de reagir. Tudo se esfumaçou.

 

O companheiro dela ainda teve uma reação mais estranha. Deitou-se no chão, queria chorar mas ria. Abraçou-se a ela, “vai ficar tudo bem”. Estava em choque, via-se bem nos seus olhos.  Demorou vários dias para recuperar. A alegria começou a ver-se nas primeiras conversas. No que tinham de mudar. Na casa que precisavam de comprar, no carro que precisavam de trocar. Para Lila sentir alguma espécie de felicidade precisou de se resguardar, ficar no seu canto para sair forte nas suas convições. Alguns planos ficariam de lado, mas descobrir novos sonhos ainda era o melhor plano de todos. E o dia chegou, “filhos, tenho uma coisa para vos contar, a mãe tem dois bebés na barriga, vão ter dois manos”. 

 

A vida falou.  

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