Este texto foi escrito para o projecto #comcanela. O projecto consiste num texto com um tema aleatório todos os meses ao dia dez, às dez horas. Os participantes abordam o mesmo assunto e publicam os seus textos no mesmo dia/hora. #comcanela conta com os três participantes: O Informador e O Homem Certo e eu. Para participar é necessário usar a hastag #comcanela.

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Lidei com a morte pela primeira vez com oito anos. Olhei para ela de cima a baixo e abanei a cabeça de modo a mostrar o meu descontentamento. Ela olhou-me nos olhos, sem pestanejar, mostrou-me quem manda, fez-me sentir medo. E desde aquele dia, permaneci com medo. Medo de cair e bater com a cabeça, de passar uma ponte e ela cair (por isso deixo sempre uma janela aberta para conseguir salvar-me), de um acidente de carro, comboio, autocarro, de ser assaltada e levar um tiro, de ser atropelada, de um sismo, uma bomba.

Olho para a minha família e tenho medo que alguém os leve. Por conhecer a dor, sei que não aguentaria tal facada do destino. Não saberia chorar tantas lárimas nem recuperar de novo. O tempo que levo a recuperar da batalha entre mim e a morte é demorada. Tem danos colaterais em tudo o que faço. 

Ter noção do tempo que me espera, faz-me sentir desesperada e irritada por saber que não terei as oportunidades que merecia. Por saber que não vou ter vida suficiente para ir atrás do quero ou sonho. Incomoda-me que os anos passem e não nos deixem viver duzentos anos, com saúde. 

Depois de ter sido mãe, a morte veio viver para uma nuvem mesmo em cima da minha cabeça. Eu sei que não vão entender esta relação entre mim e a morte (ou a vida onde sei que a morte chega). Eu sei que não consigo explicar muito bem, mas vem daí toda esta ansiedade, esta frustração. 

Já doeu mais. Só ao fim de vinte e tal anos é que aceitei a morte do meu pai. Antes, era culpada de todos os meus males. Da minha falta de sorte. Agora é culpada do medo que eu tenho em morrer. Porque, de tanto pensar na morte, por vezes, sinto-a muito muito perto.