NU, DE BOTAS | ANTÓNIO PRATA

 

Pai e mãe me beijavam, apagavam a luz: o mundo desaparecia. Como ter certeza de que voltaria a existir? De que os dois não sumiriam no breu? Que garantia tinha de que não seria levado pelos monstros que, vez ou outra, apareciam nos pesadelos — eu, que ainda não sabia o que eram monstros ou pesadelos?

 

Apaixonada por este pequeno livro de crónicas não podia deixar de vos recomendar. Episódios de uma infância feliz através do olhar de Antônio Prata que conseguiu trazer do passado as memórias.

 

O menino, os cheiros e os lugares numa escrita singela e tocante. Identifiquei-me inevitavelmente com vários episódios. O medo do monstro no quarto escuro depois da minha mãe sair. Lembro-me de mim tapada até ao nariz com medo de abrir os olhos, tenho de rir.  As luzes acesas pela casa. O fogo no chão, saltos de tapete em tapete até chegar à cama com medo que o monstro me puxasse com uma mão. Saudade imensa de voltar ao esconderijo quando era a última a ser descoberta pelos amigos na rua. Subir à nespereira e ouvir ralhar da janela do vizinho.

 

As perguntas, as palavras levadas à letra. A curiosidade pelo mundo e os outros. A admiração pela mãe que consegue fazer tudo ao mesmo tempo e lhe dá segurança. A experimentação que faz parte do crescimento e da aprendizagem.

 

Este livro foi editado pela Tinta da China este ano e tem recebido rasgados elogios por parte das críticas. Um dos maiores cronistas brasileiros com mais um livro editado em Portugal intitulado “Meio Intelectual Meio de Esquerda”. Sem dúvida um autor que pretendo acompanhar.

 

 

 

 (li em ebook)

 

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2 comentários

  1. Olá Cláudia,

    Antônio Prata possui ótimas crônicas realmente, ele seguiu os textos leves do pai que também é escritor, o Mário Prata, também recomendo. Os conheci num programa de entrevistas que passa aqui no Brasil e ri horrores das histórias que ele contava, logo fui procurar algo que ele escreveu e tive a sensação de descontração e vida real em medidas adequadas que me encantou de cara. 😉

    Até mais,

    Samantha

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