Publicado em 1 comentário

ARGENTINA | Kentukis, de SAMANTA SCHWEBLIN

 

Li Kentukis para o meu projeto Do Quarto para o Mundo. Um projeto que consiste na leitura de 196 autoras de 196 países diferentes. É um projeto que me tem dado muitas alegrias. Neste momento já li 15 países diferentes! Ou seja, faltam 181 países. As escolhas têm sido quase todas satisfatórias. Conheci autoras incríveis. E hoje trago mais uma. Samanta Schweblin. Aquela escritora que quero ler tudo. E já comecei a comprar os seus outros livros.

 

Kentukis, é o seu mais recente livro publicado pela Elsinore. Uma editora que prezo imenso, do qual sou colecionadora. Nunca pensei dizer isto, mas é verdade. Tenho uma bela coleção e estou sempre em cima das novidades. É uma editora que traz sempre autores diferentes, de vários pontos do mundo. Aposta na diversividade e na qualidade.

 

O vídeo mostra tudo o que senti em relação a este livro. E leva a ponta do véu em relação a esta história incrível e aterradora. Um tema muito actual! Acredito que lançou aqui uma profecia, mais dia menos dia irá acabar por ser assim. Mas vejam, é mais fácil explicar no vídeo.

 

Espero que tenha sido suficiente para colocarem este livro na vossa lista de desejos. Boas leituras!

Publicado em 3 comentários

NIGÉRIA | Fica Comigo, Ayòbámi Adébáyò

Editora Elsinore
Data de lançamento Outubro 2018
Estava entusiasmada com este livro. Tinha ouvido críticas muito positivas, o livro foi finalista de um prémio literário, e o preferido de algumas pessoas em 2018. Quase acreditei que estava perante um dos meus livros preferidos de 2019 ao fim de cerca de 100 páginas. Mas falei cedo demais. E de agora em diante, não deito os foguetes tão cedo. Passo a explicar.
O livro começa com muita força, uma protagonista carismática, como eu gosto. Nigéria, anos 80, na primeira cena Yejide está a conhecer a segunda mulher do seu marido Akin. Eles são casados, como ela não consegue engravidar, a sogra acha por bem arranjar uma segunda esposa para o filho. Tradições muito comuns naquele país. É extremamente importante procriar, por isso, é comum os homens terem mais do que uma mulher. Só que a Yemeji não fazia ideia que o marido teria arranjado outra esposa. Imaginem o choque daquela mulher.
Depois desta cena o drama não pára até ao fim. Porrada literária. Cheguei a sentir a barriga fria, as pernas geladas. Verdade. É raro acontecer com um livro, mas tem cenas tão emotivas e chocantes que o meu corpo respondeu desta forma.
A experiência de leitura foi positiva e recomendo a compra urgente e a leitura imediata, mas eu tive problemas com o final deste livro. O final não me pareceu coerente com o resto da história. Mas a autora perdeu-me quando exagerou no drama. Não acreditei, achei forçado. Porém, possível.
Outra coisa que me agradou neste livro foi a descrição da situação política do país e a forma como os nigerianos viveram aquele período de conflito.
O papel da mulher, a pressão da sociedade para que ela gere vidas.  A maternidade como um sufoco encantador. A loucura como refúgio para acreditar na mentira. A dor de uma mentira embrulhada em dezenas de mentiras. As famílias que podem ser as tuas melhores amigas ou piores inimigas. As diferenças abismais de uma cultura distante, no entanto com pequenas semelhanças assustadoras.
Livro impecável sobre a cultura nigeriana. Ideal para conhecer realidades diferentes e desesperadoras. Suspiros de alívio por ter nascido em Portugal.
Super recomendo. De olhos fechados. Um dos melhores livros lidos para o projeto Do Quarto para o Mundo.

Faltam 184 países 184 escritoras para concluir este projecto.

Três palavras para este livro:

– Infertilidade

– Traição

– Pressão social

 

A lista completa AQUI

 


Publicado em Deixe um comentário

HUNGRIA | A Porta, Magda Szabó

 

Editora Cavalo de Ferro

 

Lançamento Setembro 2017

 

 

 

Ainda não tinha terminado a leitura quando o livro entrou disparado para a lista de melhores leituras do ano. Colado ao primeiro lugar. É o que dá ser antecipada e despreocupada com isto dos lugares dos livros.

 

 

A Porta impactou-me tanto que não parei de falar nele enquanto fui lendo. O meu marido foi ouvindo e ficando curioso ao mesmo tempo que eu.

 

 

A narradora é uma escritora. Decido à sua vida atarefada, e com pouco espaço para afazeres domésticos, decide contratar uma empregada. Escolhe Emerence, uma senhora muito respeitada e discreta na sua forma de estar na vida, apesar da sua imponente presença. A história vai girar em torno desta empregada , e da relação que ambas têm. Ou não têm.

 

 

 

 

 

 

 

 

Emerence vive numa casa perto da casa dos patrões. Não deixa ninguém lá entrar. É proibido saber o que há por trás da porta. Daí o título. O que esconde? Também se sabe, desde o início, que a narradora é culpada pela morte dela. O que lhe fez? Que peso tão grande na consciência é este que a escritora carrega?

 

 

Este livro mexeu tanto comigo que me lançou num rio de perguntas sobre isto das relações, da verdade, da confiança. Sobre a mania dos outros acharem que sabem o que é melhor para nós, exigirem verdade por capricho. Também questionei sobre o que se baseiam as amizades, precisamos de contar tudo sobre nós? A confiança é baseada na entrega absoluta? Que espécie de pessoas somos nós se colocamos uma porta entre nós e o outro? Podemos ser duas ou três pessoas ao mesmo tempo? E no fim, o que sobra?

 

 

No fim, como leitora, tive de fazer o luto desta história. E acho que ainda vai levar uns bons anos. A Emerence é só a melhor personagem de sempre. Aquela que me parece mais real, me agarrou na cara e disse,  “Somos parecidas. Temos esta mania de salvar memórias e guardar segredos. A nossa forma de mostrar fidelidade é a forma como cuidamos dos outros. É assim que dizemos que amamos.” Uma mulher que me despertou sentimentos de pena, angústia, solidão e empatia. Adoro-a.

 

 

Fui apanhada de surpresa pela história, personagens e escrita. É aquele livro que tem os ingredientes todos para ser um livraço. Resta-lhe ter a sorte de apanhar um bom leitor. Bom, bondoso, que se deixe questionar enquanto se coloca no lugar das personagens.

 

 

Super recomendo. De olhos fechados. Um dos melhores livros lidos para o projeto Do Quarto para o Mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Faltam 185 países 185 escritoras para concluir este projecto.

 

 

 

 

Três palavras para este livro:

 

– Drama

 

– Fidelidade

 

– Impactante

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2018-12-13 12.33.31 1.jpg

 

Para ver a lista completa dos livros para o projecto Do Quarto para o Mundo clica AQUI

Publicado em Deixe um comentário

PORTUGAL | Campo de Sangue, Dulce Maria Cardoso

Comprar livro

 

Editora Tinta da China

 

Lançamento Agosto 2018 

 

Este livro chegou às livrarias em 2002, a Tinta da China recuperou esta história com uma nova edição (linda!) este ano. Estou cada vez mais apaixonada pela edições desta editora.

 

 

Nunca tinha lido nada desta escritora portuguesa, mas sempre esteve debaixo de olho. Decidi começar por este, apesar do seu O Retorno (2011) ser bastante elogiado pela crítica. Talvez seja o próximo.

 

 

A sinopse anuncia um crime e quatro mulheres como as grandes protagonistas desta história. Quatro mulheres juntas numa sala. Uma sala de tribunal? Afinal o que tinham elas em comum? Quem seria julgado? O que estavam ali a fazer?

 

 

A história desconstrói-se ao longo dos capítulos. Lentamente. Muito lentamente. Tão lentamente que demorei mais de duas semanas para terminar a leitura. A banalidade descrita com muitos detalhes. Todos os movimentos das personagens ao pormenor. Personagens que sou capaz de conhecer se me cruzar com eles na rua. Senti-me várias vezes a ler um filme, a ver um livro. Faz sentido? Alguém deve ter pensado o mesmo, porque a história vai virar filme, segundo as notícias. O narrativo é multifacetado, sabe tudo, está ausente, próximo, uma imensa variedade.

 

 

O que mais me agradou neste livro foi a escrita da autora portuguesa. Riquíssima. Também gostei da forma subtil como ela escolhe contar a história. Nunca tinha lido nada igual, nem semelhante. O único nome na história inteira é a Eva, mais nada tem nome, nem lugares, nem pessoas. Dulce Maria Cardoso não deixa nada ao acaso. Algumas cenas são tão realistas que me deram agonia. Por exemplo: quando o homem está junto da sua mãe que mastiga de boca aberta; ou quando ele vai à praia e corta do pé.

 

 

O livro não me impactou. Nunca me senti mergulhada, nem conectada.  Reconheço o grande valor, fiquei com vontade de ler mais livros da autora, mas tive dificuldades durante a leitura. Faltou o entusiasmo.

 

 

“Na mesa, uma garrafa de vinho branco quase vazia e um cinzeiro cheio de cigarros que Eva tinha desperdiçado. Na cadeira estavam os sacos com a roupa nova de Verão. Pousando a mão esquerda pousada na mesa tornou a ver as horas, 18h17. O relógio era um objeto tão inútil no pulso dele, tinha o tempo que quisesse, a única coisa que fazia era decidir onde gastar o tempo.”

 

 

Faltam 186 países 186 escritoras para concluir este projecto.

 

 

 

 

Três palavras para este livro:

 

– Mulheres

 

– Superficialidade

 

– Quotidiano

 

 

 

 

Para ver a lista completa dos livros para o projecto Do Quarto para o Mundo clica AQUI

Publicado em 4 comentários

ITÁLIA | Crónicas do Mal de Amor, Elena Ferrante

Comprar livro

 

Editora Relõgio d’Água

 

Lançamento Maio 2014

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ninguém escreve sobre maternidade como Elena Ferrante. Foi exatamente esse talento inigualável que me conquistou à primeira. Posso dizer que já li tudo o que ela escreveu (excepto o conto infantil) e estou a sofrer por mais.

 

 

Recentemente foi para a televisão a adaptação da série Napolitana, um dos livros da minha vida com as personagens mais inesquecíveis da minha estante. Estou em ânsias para ver a série, para reler a obra, para sofrer tudo outra vez.

 

 

Para representar a Itália no projeto Do Quarto para o Mundo escolhi a minha escritora italiana preferida e não podia ter corrido melhor. Crónicas do Mal de Amor é a reunião de três novelas: Um Estranho Amor, Os Dias do Abandono e A Filha Obscura.

 

 

Tivesse sido eu a escolher a ordem das novelas, Um Estranho Amor passava para segundo, de forma a dar hipótese ao leitor para descansar um pouco o turbilhão das outras novelas. É o mais fraco, mas é bom. Elena Ferrante não sabe fazer a coisa por menos.

 

 

Todas as histórias remetem para sentimentos fortes do ponto de vista de mulheres. Mulheres traídas, abandonadas, mães, filhas, desarmadas, perdidas, amargas, em busca de respostas no meio dos seus pensamentos. Muitas vezes o desconforto, o incómodo, nas passagens cruas desta escritora. O sabor agridoce de tudo o que é dito com sinceridade. Muitas vezes, a minha verdade estampada na verdade dela.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Faltam 187 países 187 escritoras para concluir este projecto.

 

 

 

 

Três palavras para este livro:

 

– Maternidade

 

– Visceral

 

– Incómodo

 

 

Para ver a lista completa dos livros para o projecto Do Quarto para o Mundo clica AQUI.

 

 

 

Publicado em 2 comentários

ESCÓCIA | Como Ser uma e Outra, Ali Smith

 

Comprar livro

 

Editora Elsinore

 

Lançamento Outubro 2017

 

 

 

Andava para ler esta autora há muito tempo. Hoje pergunto-me porque demorei tanto. Com três livros na estante, foi preciso começar o projeto Do Quarto para o Mundo para pegar num livro de Ali Smith. Que surpresa fantástica!

 

 

Este livro tem duas histórias distintas. Adorei a primeira, mas senti-me perdida na segunda. Acho que estava demasiado agarrada à história da George para começar outra. A George perdeu a sua mãe, vive com o pai e o irmão. Visitamos a sua memória, com diálogos formidáveis entre ela e a mãe. Passamos a sentir a ausência e as saudades da George. Entre desentendimentos, revelações e muita empatia, a realidade com que Ali Smith dispõe a história das duas é impressionante. Na segunda parte, não gostei tanto (nem entendi perfeitamente) a história de uma rapariga, o alter ego de um pintor muito famoso. No entanto, valeu toda a experiência. Uma história, completa a outra.

 

 

“A arte e o amor são uma questão de boas abertas em cinábrio, de preto e vermelho transformados em veludo por persistente moagem, de entendimento de cores que beneficiam da suave fricção entre si: o mínimo que a prática fará é tornar engenhoso quem a ela se dedique…”

 

 

Diz que Ali Smith é herdeira da voz literária de Vírginia Woolf. Eu senti nunces da fantástica Vírginia na narrativa da Ali Smith. Como gosto muito da primeira, fique contente com essa caracteristica. Acho que estou perante uma escritora igualmente inovadora e com um mundo vasto por explorar.

 

 

Escócia ficou bastante bem representada com esta escritora. Pretendo ler seguramente os outros livros que estão cá em casa. Recomendo, um livro com diálogos fantásticos, de uma enorme profundidade na forma como aborda as relações.

 

 

Faltam 188 países 188 escritoras para concluir este projecto.

 

 

Três palavras para este livro:

 

– Mãe

 

– Arte

 

– Memórias